Fazer
uma imagem de um objeto significa extrair todas as suas dimensões,
sucessivamente: o peso, a profundidade, o cheiro, o espaço, o tempo, a
continuidade e obviamente o sentido. [Jean Baudrillard]
Em novembro fui ajudar um ex-professor e amigo na organização de um bazar com as suas coisas. Calma, ele não virou hippie. O mundo concorda que não precisamos de mais um. O camarada está de mudança para a Austrália. Aposentado e casado com uma australiana cismou que briga de cangurus é melhor que briga de galos. Enfim, resolveu colocar à venda tudo o que não fosse levar. E era muita coisa. Antropólogo adora bugiganga. E aí já viu: é totem pra lá, coleção de selos pra cá, tudo quanto é tipo de coisa que os museus rejeitam. Dos objetos mais inusitados que vi, cito um mapa-múndi [quase do tamanho do mundo mesmo], uma fedorenta coleção de besouros e um colete a prova de balas feito em 1925.
Terminado o serviço, tudo organizado e com etiqueta de preço, o
bom maestro se vira para mim e diz, “Pode escolher o que
quiser!”. Fiquei muito indeciso entre uma espécie de facão Inca e um tabuleiro
de xadrez cujas peças que representavam um duelo “cristãos vs mouros”. Como
demorara muito a escolher, o cara sacou do baú uma câmera fotográfica velha e
lascou, “Toma logo isso e vaza, você vai gostar”. Fiquei um pouco decepcionado
no começo, eu realmente queria o facão Inca [acabei comprando dele mesmo por 10
reais]. O fato era que eu tinha nas mãos uma Canon AE-1 e não sabia nem ao
menos como colocar um filme.
A principio, não me interessei muito pela analógica. Gosto muito
de uma Nikon “semiprofissional” que tenho e hoje é difícil notar a diferença de
qualidade entre uma foto bem tirada por uma câmera digital e a mesma foto feita
por uma analógica. Bem, por curiosidade resolvi comprar um filme e testar a
danada da câmera. Logo nos primeiros clicks veio aquela sensação de desconforto
que já havia esquecido há anos: não se pode ver a foto que tirou e, por
conseguinte, o primeiro click já é uma foto e pronto. Não se pode apagar. Isso,
aos poucos, vai criando naqueles que se dedicam à fotografia analógica uma
espécie de cuidado instintivo ao tirar cada foto. Você começa a se preocupar
com o foco, com o ângulo e a velocidade do obturador. Você quer que cada foto
saia perfeita, ao invés de trabalhar por “tentativa e erro”, essa técnica tão comum
entre os fotógrafos amadores da era digital.
Resumindo, comprei um filme de 36 poses [aliás, para falar de
filmes vale uma outra postagem]. Depois de sacar todo o rolo, hora revelar.
Decepção. Só se salvaram 17 fotos. Dessas, gostei apenas de umas quatro. Mas
entre as quatro, uma em especial me chamou a atenção.
![]() |
Câmera: Canon AE-1 / Filme: Kodak Proimage 100 |
Gostei tanto dessa foto, que decidi investir em mais um rolo de
filme. Bom, dessa vez me preparei melhor. Estudei sobre quais filmes deveriam
ser usados em cada situação e como colocá-los de maneira correta na câmera. Se
da primeira vez havia trabalhado com um filme de 400 asas para fotografar
durante o dia, dessa vez escolhi um Kodak Proimage de 100 asas, sabendo que
este é próprio para dias ensolarados. Fui ao centro da cidade e saí clicando.
Resultado, “salvei” as 36 poses dessa vez. Assim surgiu mais uma paixão/vício
na minha vida.
Depois desses primeiros rolos já “queimei” mais uns vinte. Tenho
gostado cada vez mais. E não é tão caro quanto se imagina. É possível comprar
ótimos filmes a preços módicos no Ebay. E a revelação dos negativos e
digitalização negativos não custa mais que 15 reais. Vale muito a pena. Não
somente pela fotografia em si, mas por todo processo quase artesanal que ela
envolve, desde a escolha do filme até a revelação do negativo. Falando em
revelar, já estou estudando maneiras de revelar meus próprios negativos em
casa. Não é um processo muito complicado, mas exige algum investimento a mais.
Vamos ver até que ponto essa paixão aumenta.
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Para ver mais algumas fotos, é só visitar minha galeria no Flickr:
http://www.flickr.com/photos/adrianof14/