A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome,
nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.
Cecília Meireles
Este ano, por causa de uma feliz concatenação de fatos, terei a sorte de caminhar entre duas primaveras. Entre março e junho vivi a primavera do hemisfério norte, estudando em Paris. Hoje começa a nossa primavera tropical, e cá estou eu, pelejando minha arte no Triangulo Mineiro. Dois mil e dez, o ano da dupla primavera.
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Tulipas nos jardins de Notre Dame. Paris, abril de 2010 |
Em cada canto do mundo, a estação das flores nos comove de maneira própria singular. A primavera boreal nos oferta cerejeiras, tulipas e margaridas. Já a austral costuma nos brindar com ipês, lírios e gardênias. Seja onde for, ela é uma mensagem sazonal de alegria. Por sorte muita gente a compreendeu e deixou florescer em si, as pétalas de inspiração que ficaram imortalizadas em versos, canções e pinceladas. Das quatro estações, a mais retratada. Das quatro estações, a mais poetizada. Das quatro estações, a mais cantada.
Por encanto primaveril, Neruda imaginou seus mais belos versos."Te trarei das montanhas flores alegres,/copihues, avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos./ Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras". Ao ver a explosão anual das flores, Vivaldi convocou os violinos celestes, para compor a mais bela peça das Quatro Estações. No mais prodigioso quadro de Botticelli, as Graças, Hermes e Vênus dançam a alegria de mais um equinócio da primavera boreal. Foi à primavera, que Cecília Meireles ofertou sua mais bela crônica. Era nessa época que Van Gogh saía pra pintar ao ar livre. Jorge Luís Borges, mesmo cego, intuía flores pelo cheiro, por isso amava, mais que qualquer outro, a estação da deusa Ostara. E se há alguma tristeza em nosso coração, é só ligar o som e colocar pra tocar "you can never hold back spring"[click para ouvir], do Tom Waits, pro mundo virar outro.
Assim segue a primavera, iluminando plantas, bichos, deuses e homens. Aproveitemos a inspiração possível. Deixemos florescer em nós este sentimento primaveril. Tenhamos flores conosco. Nas mãos, na cabeça e no peito.
Pax Vobiscum amicis
Até a próxima
P.S.: Muitas imagens neste post. Porque a primavera, muito mais do que ser explicada, merece ser vista, contemplada e vivida.