quinta-feira, 19 de maio de 2011

QUANDO POSSÍVEL

Por esses dias tenho pensado muito numa improvisada exposição literária que vi, ano passado, em Paris. Acho que é por saudades de lá. Tratava-se de uma coletânea de fragmentos, escritos à mão em cartolinas toscas e dispostos, sem muita ordem, numa grade da Rue de Vaugirard. Eram centenas de pequenos textos, que pareciam ter sido colhidos aleatoriamente entre as obras mais notáveis da literatura universal. Víamos ali Dostoievski , Poe, Verne, Huxley, Kipling, Saramago, e até o nosso Drummond. Todos devidamente traduzidos para o francês, talvez pelo anônimo autor da estranha letra que constava nos “cartões literários”. 

Em meio a tantos nomes conhecidos e textos consagrados, um pequeno poema, de um autor estranho, me marcou para toda vida. Estava num canto, espremido entre um poema de Petrarca e um recorte de Bernanos, um pequeno poema intitulado “Autant que Possible”, atribuído a um certo Constantin Cavafy [também grafado, Konstatínos Kavafís], que mais tarde descobri ser um grande poeta grego, outro daqueles que não nos são permitidos conhecer, por falta de tradução. 

Compartilho aqui, uma foto do Autant que Possible e a tradução livre que fiz para divulgação.

clique na imagem para ver em tamanho original


QUANDO POSSÍVEL

Se não lhe é possível viver como você gostaria
cuide, pelo menos, de não reduzir sua vida
ao excessivo contato com as pessoas
multiplicando gestos e palavras.

Não banalize a vida, indo de um lado para outro,
expondo-se à estupidez das relações humanas
no cotidiano das multidões, para que ela (sua vida)
não se transforme em uma inconveniente estranha.

[Constantin Cavafy, 1863-1933]

***

Às vezes caminho pela Rua das Laranjeiras, na esperança de achar algo semelhante. Até hoje, nada. Acho que é só saudade de Paris. 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sobre a absoluta necessidade das coisas inúteis


Mais da metade de tudo que descobri na vida, aprendi enquanto caminhava. Sentado, numa sala de aula, aprendi pouca coisa. Talvez algumas técnicas rudimentares de disfarce, enquanto tentava esconder dos professores de matemática, física e química as fórmulas que nunca se separaram de mim na hora dos antigos testes do ensino médio. Por isso, me surpreendi comigo mesmo ao constatar que em meu sexto dia de férias, no interior de Minas, tinha passado quase todo o tempo no sofá, tentando zerar Street Fighter Alpha com o Zangief, assistindo à ultima temporada de Lost e relendo Pergunte ao Pó, de John Fante.

Ao constatar tamanho lapso da razão, já há muito vencida pela preguiça, resolvi inverter a lógica proposta por Deus no Gênesis , e saí para fazer algum exercício no sétimo dia após o início do meu, até então, tedioso ócio ferial. Logo de manhã, calcei meu velho M2000, coloquei o Ipod para tocar infinitamente Walk on a Wilde Side, do Lou Reed e segui para o parque Recanto Verde com o mesmo espírito daqueles corredores alucinados do filme Carruagens de Fogo. Depois de cem metros de frenética corrida, já exausto, decidi diminuir o ritmo e ir andando mesmo. Meia hora depois chegava ao meu destino, tão cansado quanto Filípedes depois de correr a primeira maratona. Moribundo que estava, após o homérico esforço de caminhar dois quilômetros em meia hora, decidi recarregar as energias procurando sombra e água de coco. Enquanto rastreava o perímetro em busca das consolações citadas, avistei meu antigo professor de história da 8ª série. Nosso querido “Dom Isaías de la Mancha”, um genial sósia do Ray Conniff que ensinou a toda uma geração de futuros funcionários da Vale do Rio Doce que a história é algo que está acontecendo agora.

Nuvens, praia e sol. Inúteis?
San Sebastián, País Basco. 2010
Isaías era uma pessoas daquelas que a gente imagina terem sido velhas desde sempre, bem ao modo de Oscar Niemeyer e Hebe Camargo. Sempre muito reservado, nunca o tinha visto falar fora das aulas. Enquanto alunos, pouco sabíamos sobre ele, apenas desconfiávamos de seu vício alcóolico. Sempre que ele cruzava os umbrais de nossa sala, ao ambiente era acrescentado um certo odor etílico meio uísque, meio cachaça, que de certa forma conferia uma estranha credibilidade às coisas ditas por ele. Eu o admirava bastante, mas nunca tive chance de dizer isso a ele. Agora ele estava ali a poucos metros, aparentemente sozinho, sentado na grama enquanto lia um volume sem capa, com uma lata de cerveja do lado.

Nunca fui bom em puxar papo, mas para minha surpresa, quando me aproximei ele foi logo me dirigindo um sorriso e dizendo “fala meu aluno”. Mandei o clássico “o senhor ainda lembra de mim?”, e aí a conversa correu solta. Falamos dos tempos gloriosos do Grupo Escolar Afonso Pena, da política viciada de Santa Bárbara e do nosso querido União Sport Club, campeão santa-barbarense daquela temporada. Me ofereceu uma de suas Guinness que jaziam, já não tão geladas, no isopor que o acompanhava. O assunto acabou. Eu já me despedia, quando lembrei de perguntar o que ele estava lendo. “O Guia do Observador de Nuvens”, respondeu-me muito animado. Na minha empáfia, alimentada pelo orgulho de ter conversado, como amigo, de um dos intelectuais que mais admirei na vida, proferi o lamentável comentário: “Que isso Isaías, um homem de sua envergadura filosófica, perdendo tempo lendo uma coisa inútil como essa?”. Mal tive tempo de fechar a boca, e ele deixou de ser meu amigo para voltar a condição de velho e bom mestre, para me passar a sua, talvez, derradeira lição. Dizia ele, “então você acha que observar nuvens é inútil? Vou lhe contar uma breve estória chinesa que fala sobre a utilidade das coisas”. E me contou uma parábola, que depois descobri ser do livro A Via de Chuang Tzu, compilação do monge pós-moderno Thomas Merton, que reproduzo agora.
Disse Hui Tzu a Chuang Tzu: "Todo o seu ensinamento está baseado no que não tem utilidade".
Replicou-lhe Chuang: "Se você não aprecia o que não tem utilidade, não pode começar a falar sobre o que é útil. Por exemplo, a terra é larga e vasta, mas de toda a sua extensão, o homem utiliza apenas algumas polegadas, sobre as quais se mantém de pé. Suponhamos, agora, que você tire tudo o que ele realmente não usa de modo que, ao redor de seus pés, um golfo se abra e ele fica de pé no vazio, sem nada de sólido, com exceção do que se encontra bem debaixo de cada pé. Por quanto tempo poderá utilizar o que está usando?"
Disse Hui Tzu: "Cessaria de servir a qualquer finalidade".
Concluiu Chuang Tzu: "Isto prova a absoluta necessidade do que ‘não tem necessidade’".
Depois de me contar isso, despediu-se e saiu caminhando vagaroso, olhando para o alto como que a tentar classificar as nuvens que via. De minha parte, voltei para casa pensando sobre como ainda não sei nada sobre essa vida. Saberei um dia? Saberemos?  De volta ao meu sofá, liguei o computador , acessei o site da Livraria da Travessa e comprei o Guia do Observador de Nuvens. Obra fantástica, recomendo.

Pax Vobiscum amices,
Até a próxima!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

João, Anita e Dezembros


Honrarei o natal em meu coração e tentarei conservá-lo durante todo o ano.
Charles Dickens

João tinha a profissão de José, era Carpinteiro. Da instransponível oficina nos fundos de casa tirava o sustento da família. Serrote, enxó e martelo eram suas mãos. Sempre cheirava à madeira e cachaça. Era especialista em fazer mesas, armários e portas, mas gostava mesmo de fazer brinquedos para as crianças. Ele se divertia com o riso delas no quintal. Fingia raiva quando a meninada subia no pé-de-laranja, só para não perder o respeito. Suas camisas engomadas, seu paletó de ir à missa no domingo, seu cinto marrom com bainha para o inseparável canivete, o baralho encardido e sua voz mínima no som e máxima na autoridade, eis a mais forte memória coletiva da família.

Anita era Dona de Casa. Assim, maiúscula. Fazia da casa o reino de suas infinitas habilidades. Cuidava de um jardim que parecia crescer pra sempre. Rosas, margaridas, violetas, hortênsias, quase nenhum vaso. Tudo plantando direto na terra, como as plantas gostam. Fazia tricô, crochê e bordado. Gostava de tons marrons para suas peças, acho que porque combina com as peças de madeira talhadas por João. Cozinhava no fogão à lenha, porque não sabia calcular o tempo das quitandas no fogão à gás. Fazia os melhores doces do mundo e não provava nenhum, porque era diabética. Seus vestidos longos, sempre com estampas de flores, seus óculos de lentes grossas e sua doce seriedade cotidiana, formavam a imagem de uma santa, a única que podia rezar com a gente.

Em dezembro, todos vinham para casa abraçar João e Anita. Era quando os móveis e brinquedos de João faziam sentido. Era quando o jardim de Anita ficava mais florido. Aquela inexplicável felicidade de casa cheia. Pais, filhos, netos e algum bisneto. Novena de natal, comidas, histórias e estórias, as de sempre. Tudo tão igual ao ano anterior, tudo tão sincero. Dezembro terminava num domingo de manhã, depois do natal, com as despedias debaixo do pé-de-laranja velho.

Já faz alguns dezembros que João Damasceno Ferreira e Anita Damasceno Lopes, meus queridos avós maternos, se encantaram. Ficou a casa velha. Nela as ferramentas, móveis e brinquedos de João, as flores e bordados de Anita. Em breve estaremos todos lá. Sabemos que os dezembros nunca foram os mesmos sem João e Anita, mas se há dezembros é porque um dia eles estiveram lá.

***
Não aprendi ser carpinteiro como João. Não herdei nenhuma habilidade de Anita. Hoje compro os meus móveis e mal sei o período que tenho de regar meus mínimos vasos com cactos do deserto. Aprendi pouco ou quase nada com João e Anita. Mas quando lembro de João martelando na oficina e de Anita assoprando a lenha no fogão, percebo que com eles aprendi o mais importante: tudo que é simples, é mais fácil de amar. A eles, minha gratidão eterna.

***

Pax vobiscum amicis,
Boas Festas!

domingo, 10 de outubro de 2010

EU, QUE SÓ QUERIA COMPRAR UM VINHO

(...) e sua profissão o acostumara ao manejo ético do esquecimento.
Gabriel Garcia Máquez

Vivemos em uma época admirável. Duvida? É Possível encontrar um bom vinho francês, italiano, chileno ou português num supermercado de nome “Princesa” há duas quadras de sua casa. E isso sem ter de desembolsar algo que supere módicos 30 ou 40 reais. É ou não é uma época admirável?  Só que a mesma época que nos permite o encontro com os vinhos, muitas vezes, nos afasta das pessoas, até daquelas a quem amamos. Os vinhos são necessários, as pessoas imprescindíveis.

Foi por causa de um vinho que a revi. Era uma daquelas típicas manhãs de sábado carioca. Fresca e com pouca gente na rua. Precisava cLomprar uma garrafa para uma confraternização entre amigos, mais à noite. Desci a rua das Laranjeiras, a pé, como quem se adianta rumo a adega de um château na Borgonha. Já próximo ao Largo do Machado, caminhava distraído, ébrio pela música que o ipod, aleatoriamente, escolheu para mim. Carmina Burana de Carl Orff. É estranho como certas músicas tem a vocação para emoldurar momentos marcantes. Alheio a todo resto, ignorei aquela sensação que antecede aos grandes momentos da vida,  aquele suspiro que apelidamos de presságio. Ignorei, pois estava amando a minha distração. O momento da distração é quase como um transe. Hipnose? Esquecimento mor. E existe algo melhor do que esquecer?

Metáfora perfeita para o esquecimento
 Buzet-Sur-Tarn [21/05/10]
Esvaziei-me a ponto de quase não-estar, aproximei-me de não ser. A música era silêncio. Caminhava sem andar, olhava sem ver. Só ia. Eu era uma ópera barroca flutuando rumo ao Sendas. Nada poderia impedir o meu Nirvana. Mas o destino, inevitável alquimista das horas, a todo instante nos avisa: há coisas tão impossíveis de esquecer. Foi quando que, do nada, aquele rosto. O mesmo. Nove anos e era a mesma. Tão bucólica, tão mineira. Parecia passear na praça da matriz, em Santa Bárbara. Revolto na ebulição de centenas memórias ressuscitadas, gritei. Ela ouviu. Um abraço, máximo abraço. Tanta coisa pra dizer, mas ela não podia parar. Foram cinco minutos de amor recuperado. Pedi o telefone. Anotei. Disse tchau. Ainda vi quando ela se apressou pelas escadarias do metrô. Último aceno.

Já se passaram três meses. Não liguei. Vivo, atualmente, em um estado de felicidade milimétrica. Um passo para trás ou para frente pode significar o fim das consecutivas alegrias que tem me atingido, ainda que eu não tenha mérito para tanto. Talvez haja algum medo de deixar escapar tudo que está ao meu redor. Mas se é para arriscar, que seja com uma passo pra frente. 

Ainda naquela manhã, comprei o vinho. Um pinot noir uruguaio de 2004, que não recordo o nome. O tempo faz bem aos vinhos. As vezes faz o mesmo com o amor. Mas para alguém cuja profissão exige o manejo ético do esquecimento, o tempo é só um aliado no penoso processo de esquecer.  Amo mais o esquecimento que o próprio amor. À noite, enquanto refletia sobre o royal flush de copas que tinha na mão, contei a história para meus amigos. Conferi uma certa gravidade ao momento. Hermeticamente, brindamos ao esquecimento. Mostrei as cartas. Sorrisos. O mundo começava a voltar ao normal.

Agora, enquanto escrevo, volto a ouvir a opera magna de Carl Orff,. Salto logo para o décimo quinto movimento, Amor volat undique [O amor voa por toda parte]. Respiro a música. Deixo-me distrair. Escrevo sem meditar. Verba volat undique [as palavras voam por toda parte]. Recomeço a esquecer. Esquecer é causa eterna. Sigo. Eu, que só queria comprar um vinho.

***
Abraço,
Até a próxima!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

2010: o ano da dupla primavera

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome,
nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.
Cecília Meireles

Este ano, por causa de uma feliz concatenação de fatos, terei a sorte de caminhar entre duas primaveras. Entre março e junho vivi a primavera do hemisfério norte, estudando em Paris. Hoje começa a nossa primavera tropical, e cá estou eu, pelejando minha arte no Triangulo Mineiro. Dois mil e dez, o ano da dupla primavera.
Tulipas nos jardins de Notre Dame. Paris, abril de 2010
Em cada canto do mundo, a estação das flores nos comove de maneira própria singular. A primavera boreal nos oferta cerejeiras, tulipas e margaridas. Já a austral costuma nos brindar com ipês, lírios e gardênias. Seja onde for, ela é uma mensagem sazonal  de alegria. Por sorte muita gente a compreendeu e deixou florescer em si, as pétalas de inspiração que ficaram imortalizadas em versos, canções e pinceladas. Das quatro estações, a mais retratada. Das quatro estações, a mais poetizada. Das quatro estações, a mais cantada.

Cerejeira. Taizé, abril de 2010
Por encanto primaveril, Neruda imaginou seus mais belos versos."Te trarei das montanhas flores alegres,/copihues, avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos.Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras"Ao ver a explosão anual das flores, Vivaldi convocou os violinos celestes, para compor a mais bela peça das Quatro Estações. No mais prodigioso quadro de Botticelli, as Graças, Hermes e Vênus dançam a alegria de mais um equinócio da primavera boreal.  Foi à primavera, que Cecília Meireles ofertou sua mais bela crônica. Era nessa época que Van Gogh saía pra pintar ao ar livre. Jorge Luís Borges, mesmo cego, intuía flores pelo cheiro, por isso amava, mais que qualquer outro, a estação da deusa Ostara. E se há alguma tristeza em nosso coração, é só ligar o som e colocar pra tocar "you can never hold back spring"[click para ouvir], do Tom Waits, pro mundo virar outro.

Primavera. Sandro Botticelli, 1492.
Assim segue a primavera, iluminando plantas, bichos, deuses e homens. Aproveitemos a inspiração possível. Deixemos florescer em nós este sentimento primaveril. Tenhamos flores conosco. Nas mãos, na cabeça e no peito.

Pax Vobiscum amicis
Até a próxima


P.S.: Muitas imagens neste post. Porque a primavera, muito mais do que ser explicada, merece ser vista, contemplada e vivida.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

ARREBOL


A mais honrosa das ocupações é ser útil ao maior numero de pessoas possível.
Michel de Montaigne

O lugar
Um dia você acorda no meio de uma megalópole, como escrevi na postagem anterior, já noutro dia você acorda no meio do sertão. Em uma palavra: choque. Desaparecem o asfalto, as buzinas, todas aquelas infinitas possibilidades de encontros e programas. No lugar está a poeira da estrada, pavimentada somente por cascalho, o grito desesperado dos galos matinais e uma rotina que não permite muitas alterações. Todo dia os mesmos caminhos, as mesmas pessoas, os mesmos trabalhos. Mas não é uma rotina semelhante a da cidade, tudo é mais natural e espontâneo. A impressão que tenho é que a aqui o mundo acontece e a gente é parte dele, não é um mundo criado por nós, é um mundo do qual participamos, como coadjuvantes já muito acostumados com seus mínimos papéis.

Revoada de Concrizes, será que vai chover?
Como na cidade, há perigos. Se por um lado não é preciso trancar portas, por outro, sempre que for se vestir é preciso conferir as peças de roupa, os calçados e tudo mais para escapar de possíveis animais peçonhentos. Há muito sol e pouca água. O chão é seco e difícil de plantar. O trabalho de cultivar aqui é quase que dobrado. O outro nome do sertão é desafio. Este lugar desafia as pessoas a viverem aqui. Estamos, todo o tempo, armados para um duelo.


O povo
A primeira impressão do povo sertanejo é de que as pessoas daqui são quase tão secas quanto a terra. Poucos olhares, muitos silêncios,   prosa rara. Ledo engano. Coisas de primeiro e inocente olhar. De fato, eles são como a terra, aparentam secura, mas se você faz o mínimo esforço de cultivar, tudo nasce. Com as pessoas daqui é a mesma coisa. Só que pessoas não se cultiva, pessoas a gente cativa. E se deixa cativar por elas também. Euclides da Cunha insistia que o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Verdade. Aprofundando, também é sábio, contador de “causos”, moroso, bravo, impiedoso com os inimigos, rancoroso e santo.

Sol a Sol
O dia começa cedo. A gente acorda lá pelas cinco e meia, vencidos pela insistência da orquestra de galos. Tomamos um gole de café, aproveitamos que o clima ainda está fresco e partimos para a jornada. São oito quilômetros do vilarejo até a roça que cuidamos. Eu faço o caminho de bicicleta. Na estrada, quase todos vão de moto. Ainda há os que vão a cavalo, muitos a pé e uns raros, muito raros, que tem alguma camionete, charrete. Vamos juntos, trocando cumprimentos, seguindo um trecho de estrada juntos, compartilhando o nascer do sol com passarinhos, vacas, capins, aroeiras e poeira.

Fogão da Nice, feijão e galinha d'angola
Chegando na roça, antes de começar a lida,  é  sempre bom ir nos vizinhos que tem casa por lá. Lá está o café mais reforçado. Na casa de seu Joaquim Branco, sempre tem café ralo e alguma quitanda boa. Tapioca, em geral. Na casa de dona Nice, café forte e bolacha comprada na rua. Alimentados, vamos a lida.

Trabalhamos em torno de um grande açude. Nossa missão: reflorestar. Há muito por fazer. Mais de oitenta por cento da mata já virou carvão. O que resta, segue o mesmo destino. Ali, bem próximos a água, fazemos mudas. Já temos muitas. Mudas de tudo quanto há de árvores nativas. Leucena, ipê amarelo, pau-pintado, angico, tambaqui [que eles não gostam, porque as vacas comem e abortam], cedro, sucupira, tantas. Frutíferas também. Mil mudas. Distribuição gratuita. E é bom ver que tem gente querendo plantar.

Há quem queira parar com o carvão para começar com agricultura. Poucos. Melhor que nada. Já tem gente plantando horta, onde achava que hortaliça não nascia. Dá gosto de ver. Cresce uma ponta de orgulho. Dá uma vontade de continuar.

Vamos trabalhando. Dá quatro da tarde, o sol mais baixo. Rumamos pra casa. O mesmo caminho, as mesmas pessoas, quase sem novidades. Talvez um futebol no campinho. Depois, banho frio. Jantar. Casa dos vizinhos. Muita prosa: o preço das coisas, eleições, quando vem a chuva, campeonato brasileiro e do gol perdido na pelada de agora a pouco. Falamos de tudo que cabe. Enfim, muitos "causos". Muitos mesmo. Sempre tem um bom. E quando há o silencioso consenso coletivo de que um certo caso foi bom, vamos dormir. Amanhã o dia começa cedo.
Arrebol vespertino no Sertão [05/09/10]
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Livros que tem me ajudado
Manual do Arquiteto Descalço, Johan van Lengen
Obra Completa, Paul Verlaine
Ensaios, Michel de Montaigne
Guia Ilustrado Zahar de Astronomia,  Ian Ridpath
O livro de São Cipriano, o Bruxo
Abre a Porta: Cartilha do Povo de Deus, Diocese de Caratinga
Vidas Secas, Graciliano Ramos




***
Abraços,
Luz na Caminhada.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Um dia você acorda no meio de uma megalópole...

A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero. [Henry Thoureau]

 Um dia você acorda no meio de uma megalópole e a primeira buzina mal-educada te faz pensar: eu não sou daqui.

Um dia você chega em seu trabalho e percebe que noventa e cinco por cento dos sorrisos e cumprimentos que recebeu nos corredores, no elevador e pelo telefone são automáticos demais para serem verdadeiros.

Um dia você se vê atolado em burocracia, dentro de um escritório congelado pelo ar condicionado que não te deixa respirar. Todas aquelas horas na frente do computador estão te matando.

Um dia você percebe que sempre diz “sim senhor” para o seu chefe, mesmo quando ele está redondamente enganado. Mentir pra você mesmo se torna quase natural.

Um dia você se cansa de todas aquelas reuniões de revisão e planejamento, cujo o resultado são outras reuniões que tendem a se multiplicar até o infinito.

Um dia você percebe que o dinheiro corrompe as pessoas de maneira absurda e você não consegue escapar dessa lógica maldita.

Um dia você olha para a sua pasta de musicas no computador e só tem coisa antiga.  Você não tempo para descobrir coisas novas.

Um dia você reabre aquele livro que começou a ler tem mais de um mês. Você ainda está na pagina cinqüenta e seus olhos já estão pesados demais pra continuar.

Um dia você abre o jornal e vê um filme ou peça de teatro que te interessa, é a última semana em cartaz. Você olha sua agenda. No único dia que você pode, nenhum dos seus amigos pode ir com você.  No dia seguinte trinta pessoas querem que você vá ao aniversário delas.  Você prefere ficar em casa comendo Ruffles e assistindo a um filme velho no Telecine. 

Um dia sua namorada te liga, você vê o nome dela na tela do celular e pensa em não atender. Você deixa o telefone tocar até cair na caixa postal. Ela liga de novo. Você quer terminar.

Um dia você percebe seus ombros tão tensos e se lembra de Atlas, carregando eternamente o mundo nas costas. Você realmente se sentiria bem em trocar de posição com ele.

Um dia você abre sua caixa de e-mail e para de deletar aquelas mensagens de auto-ajuda em formato PowerPoint. Você começa a ler cada uma delas com atenção especial. Se emociona sempre no ultimo slide. Por algum motivo você deseja repassar aquilo para seus amigos. A sua vida está se derretendo aos poucos.

Um dia você acorda no meio de uma megalópole e a primeira buzina mal-educada te faz pensar: eu não sou daqui.  Você se lembra que é do interior, quase da roça. Pensa que nas cidades pequenas o mundo é diferente. Será possível viver lá? Terá de abrir mão de tanta coisa.

Nesse dia você se lembra que já tem 29 anos e que sua escolha tende a ser definitiva. Então, você vai?

***

Depois de escrever o texto acima, lembrei-me de do poeta Paul Verlaine que certa vez rabiscou: "Escolher uma vida humilde, repleta de trabalhos simples e pesados, exige muito amor". 

***

Abraço,
Luz na nossa Caminhada.