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segunda-feira, 6 de abril de 2009

CIÊNCIA, MISTÉRIO E POESIA ALQUÍMICA

Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo. (Guimarães Rosa)

O mistério é aquilo que nos ataca em nossa fragilidade maior, a de não-saber. O homo sapiens não suporta o desconhecido, precisa vencê-lo a todo custo, desvelá-lo, colocá-lo a mostra. Por isto existe a ciência. A ciência moderna é nossa tentativa de dar resposta aos mistérios da existência. Porém, houve uma época em que o mistério tinha vida própria, ele se sustentava por si mesmo, não hermes_mercurius_trismegistus_siena_cathedral precisava ser desvelado a todo custo. Era uma época em que a condição humana se relacionava com o desconhecido de tal forma que a própria essência do humano era o próprio mistério. Não faz muito tempo, algum pensador, do qual não me recordo o nome, afirmou: “ser humano é deixar-se fascinar pelo mistério”. Nessa época em que humano e mistério caminhavam juntos, também havia uma corrente da ciência que escapava aos padrões atuais e se fundamentava exatamente no mistério, a alquimia. As secretas e míticas transmutações minerais realizadas por Paracelso, Flamel, Bacon, Hermes Trismegistrus, entre tantos outros, até hoje, povoam o imaginário coletivo e inspiram obras literárias e artísticas.

Mas nem só de experimentação viviam os alquimistas. Alguns lançaram obras literárias em diversos gêneros, desde o epistolário até a escrita em túmulos. Tendo acesso à obra “Mysterium Coniunctionis” do psicanalista suíço C. G. Jung, percebi que a atividade poética alquímica é vasta e de muita qualidade. Os textos acompanham as convicções dos autores que transmutaram em poemas os paradoxos que compunham seu segredoso trabalho, dando vida aos mistérios que os acompanharam até a morte. Seguem alguns poemas alquímicos.

Epitáfio em um Túmulo de Bolonha

(Publicado pela primeira vez na obra Symbola Aureae Mensae, 1617, p.169)

Lucius Agatho Priscius

Não é nem marido, nem amante, nem parente

Não está triste, nem se alegra

Isto não é monumento nem pirâmide, nem sepulcro.

Ele não sabe a quem edificou (e o quê).

(Isto é um sepulcro que dentro não tem cadáver.

Isto é um cadáver que não tem um sepulcro por fora.

Mas cadáver e sepulcro são a mesma coisa).

No poema-epitáfio acima, o autor se posiciona mediante a morte (que é o fim de todos os mistérios) sem a soberba humana de se achar um ser privilegiado pelas “forças universais”. Ele Se coloca como parte do universo, e não como um ser fora dele. No mesmo sentido temos um epigrama do século XV, sem autor conhecido, compilado por H. Zimmer em 1944:

Não Sou homem – também não sou Deus nem duende,

Nem brâmane, guerreiro, cidadão ou sudra,

Nem discípulo de brâmane, nem pai de família, nem eremita na selva

Também não sou Nenhum peregrino a mendigar,

Minha essência é ser alguém que desperta para o que lhe é próprio.

Em outras palavras, por mais o homem nunca pode ser considerado um ser acabado, pronto. Somos o devir, um constante vir-a-ser ou a eterna busca pelo que há de singular em nós.

Para encerrar, ficam duas frases de autores modernos que servem para medir, acredito, nossa relação, ainda forte, com as concepções alquímicas e sua proposta de constante mutação, segredo e mistério.

Dentro de nós existe uma coisa que não tem nome, esta coisa é o que somos” (José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira)

O senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.“ (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

Pax tecum amicis,

Até a próxima.

PS: Na imagem do post, retirada de um dos afrescos (ou painéis) da Catedral de Siena, temos Hermes Trismegistrus e seu mais famoso texto alquímico, a “Tábua Esmeralda”.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A "MONTANHA VIVA" DE HENRIQUETA LISBOA

“Não haverá, em nosso acervo poético, instantes
mais altos do que os atingidos por
este tímido e esquivo poeta.”
(Carlos Drummond de Andrade,
em crônica acerca da obra de Henriqueta)
Hoje visitaremos, Henriqueta Lisboa, poeta de lírica irretocácel, tantas vezes esquecida pelas antologias nacionais. Ela não se dedicava a cantar os grandes fatos, sua poesia ganhava forma por meio da observação dos detalhes do mundo. Em breves estrofes de miraculosa beleza ela metamorfoseava em poesia os menores seres, as pequeníssimas coisas ou os segredos de um instante. O mínimo elevado ao máximo de sua potência, eis a segredosa herança de Henriqueta.

Muitos d
os livros de Henriqueta alcançaram largo reconhecimento, tendo sido traduzidos para vários idiomas em todos os continentes. Talvez Henriqueta esteja longe de ser "obscura", enquanto poeta. Porém, entre os livros aos quais ela deu vida, alguns ainda encontram-se no limbo do não-reconhecimento literário. Dentre eles, destacaremos aqui aquela que talvez seja sua maior criação artística: "Montanha Viva - Caraça" (1959). Depois de uma temporada na famigerada "Serra do Caraça", cuja fama e história se confundem com a própria formação do espírito mineiro do século XIX, nossa poeta deu vida à Serra, cantando seus silêncios e solidões em versos de rara beleza.


Cada detalhe da Serra, que no passar dos séculos viveu muitas e intensas vocações (colégio, hospedaria, centro de peregrinações religiosas, espaço de pesquisa, seminário, parque natural), foi poetizado com magnífica destreza. Assim, o sino já não era mais somente um instrumento de alerta, mas "o fiel coração do santo Irmão"; nem ao menos a camélia seria doravante um simples flor, mas alcançaria a alcunha de "círculo em que se encontram os corações". Equanto esteve no caraça, Henriqueta fez de quase tudo motivo para sua poesia lírico-minimalista, principalmente aquilo que sempre escapa à nossa vista tão cansada por olhar com mais frequência o grosso e o bruto do mundo. A Serra do Caraça, sempre bela e imponente, pôde descobrir a partir da publicação de "Montanha Viva" uma nova vocação em sua vasta história, a vocação para beleza dos menores detalhes.

Para encerrar um poema do Montanha Viva, cuja inspiração de Henriqueta emergiu da contemplação de uma "pedra em forma de gente".



Solidão

Um homem na solidão
- que perene solilóquio! -
fala profundo a si próprio.
Fala a Deus em termos claros
a fluírem das mesmas águas
pela eternidade em curso.
Fala com tremor na voz
para que relvas e musgos
a palavra testemunhem.
Fala com os ventos diversos
para que a mensagem levem
aos ouvidos do horizonte.
Fala com o penhor das rochas
para que as estrelas o ouçam
desde a pedra em que se assenta:
"Da pedra de solidão
hei de levantar um templo".


Pax tecum amicis.
Até Breve.





quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Breve miscelânea poética para estar mais perto de Deus


O inventivo Mário de Andrade lançou seu primeiro livro de versos com o seguinte título: Há uma gota de sangue em cada poema. Verdade maior. Uma boa poesia é um milagre em forma de palavra. Uma boa poesia custa sangue. Custa, vez por outra, uma vida. Como foi o caso de Apollinaire, cuja vida diminuía quanto mais alturas atingia sua obra poética. (notaram minha veia poética nessa frase?)

Mas uma coisa é certa, pelo menos uma vez na vida todo mundo foi poeta. Talvez por um coração despedaçado, talvez por um belo por do sol, talvez por um sentimento nacionalista ou mesmo pra “brincar com as palavras”. Poesia é coisa que nasce com toda a gente. Porém pouca gente se arrisca a ser poeta. Porque poesia é coisa dificultosa.

Isso porque, ao contrário do que se pensa, não basta está apaixonado para escrever um poema. É preciso método. Não basta estar inspirado para escrever um poema. É preciso tempo e trabalho.

Quando me decidi por dedicar a primeira lista do ano ao gênero poético, quis apenas partilhar algumas obras poéticas que considero fundamentais para a minha formação poética. Antes que perguntem, não sou poeta. Sou apenas um amante da breve arte de metaforizar o mundo.

Podemos definir esta nova lista pelo seu título “Breve Miscelânea Poética para estar mais perto de Deus”. O vocábulo miscelânea é esclarecedor. Não temos aqui compromisso com época, tamanho, língua ou mesmo estilos poéticos. Sem ordenar, listei os dez livros poéticos que mais me comoveram até o tempo presente. Talvez até tenha cometido alguma injustiça com meus gostos pessoais (nunca com os autores, pois mesmo os aqui negligenciados se encontram em lista muito mais gabaritadas do que a minha), deixando de lado algumas figuras carimbadas de minha memória, como Vinícius de Morais, Virgílio, Gabriela Mistral, Paulo Leminski e outros recém esquecidos. Mas só cabiam 10, e me de alguma forma, me orgulho de ter lido os que ali estão.

Desde os britânicos Keats e Blake, passando pelos os latinos Neruda e Drummond, até o medievo Arcipestre de Hita, o que tentei expressar com esta lista foi a inesgotável possibilidade da poesia, cuja beleza pode realizar-se no verso rimado e métrico de Apollinaire ou mesmo no verso livre de Manoel de Barros.


Não vou comentar nenhum livro em especial, porque poesia não se comenta, não se explica, se sente. como podemos deduvir de uma leitura atenta desse breve trecho do poema "A máquina do Mundo", do genial Carlos Drummond de Andrade.

/


"O que procuraste em ti ou fora de


teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,


olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência

sublime e formidável, mas hermética,


essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,

que nem concebes mais, pois tão esquivo


se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste... vê, contempla,

abre teu peito para agasalhá-lo.”

/


Não encontro possbilidade explicativa para tão alto uso da palavra, mas posso descrever meu sentimento. Quando leio poemas assim me sinto mais perto de Deus.





Bons sentimentos a todos.


Pax tecum amicis.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Recomendações da Biblioteca de Babel, ou pequena boca livre para mendigos não iniciados


Do lado esquerdo do blog, logo abaixo do perfil, adicionei uma lista com dez recomendações literárias da Biblioteca de Babel (onde estão todos os livros do mundo). Esta lista será mudada mensalmente, conforme eu atualizar minhas leituras. Mas como essa é a primeira, optei por começar com alguns livros que considero clássicos. Mas o que é um clássico?

Muitas vezes, quando imaginamos o signo verbal "clássico", nossa mente vai em direção a algo que já carrega consigo certa antiguidade. Mas partilhamos da idéia de Italo Calvino, de que o clássico não é apenas o antigo, mas o eterno. Em se tratando de livros, Calvino afirma: "os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: Estou relendo... e nunca Estou lendo..."

Clássicos são livros que influenciam a história, e se deixam influenciar pela mesma. São livros que quando leio, sempre me despertam para alguma reflexão sobre mim ou sobre o mundo.

Enfim, clássicos são aqueles livros pelos os quais nunca podemos "correr os olhos" sem que sejamos atacados pelo vírus da reflexão.

Sei que não é fácil ler dez livros literários em um ano. Há pessoas que não lêem nem ao menos um único livro em toda vida. Ler é expandir horizontes. Ler um clássico é ir além do horizonte. Experimente tentar ler pelo menos um desses livros. Se já leu todos, releia, afinal estamos falando de clássicos, e clássicos existem exatamente para serem relidos sempre.

Dos que aí estão vou recomendar mais fortemente apenas um, a obra máxima da literatura brasileira, Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, mineiro doido de Cordisburgo. Grande Sertão, é mais que um livro. É um milagre. Como diria o próprio Rosa, "Tudo é milagre. Duvida? Mesmo quando nada acontece há milagres que não estamos vendo". Mas este livro não é um milagre qualquer. Ele significa o nascimento da idiossincrasia literária brasileira.

Antes de Guimarães, com Machado de Assis, já havíamos alcançado o cume do mais elevado monte literário existente, porém as ferramentas que utilizamos nessa empresa alpinística ainda eram importadas da Europa. Guimarães Rosa, construiu suas próprias ferramentas, e nelas gravou "made in brazil". Ele reinventou o português escrito, inserindo nele não apenas as palavras o sertanejo, mas também seu peculiar jeito de falar, e mais, colocou filosofia e teologia na boca de gente da roça. Ou melhor, descobriu a filosofia e teologia que já estava lá, na roça. Mostrou que o Sertão tem seu mundo próprio. Mostrou que o "Ser-tão" é o mundo. Eis um trecho:

O senhor... Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. É o que a vida me ensinou”.

Leia os clássicos para ser-mais.

Pax tecum amicis!